Como já falei aqui algumas vezes, Françoise Dolto sem dúvida alguma é a minha inspiração no meu percurso na Psicanálise, a forma como ela enxerga as crianças – e por tanto o ser humano como um todo – me toca e me inspira e me faz a cada leitura, ou áudio refletir não só sobre o meu percurso como profissional, mas sobretudo como pessoa!

E essa frase que posto hoje me fez pensar muito sobre isso, sobre o quanto o não falar, o silêncio no sentido da palavras que constróem, pode ser angustiante!

Fiquei até pensando que pode até mesmo ser engraçado falar isso em tempos em muito se fala de mindfulness e meditação, de acalmarmos a nossa mente e nossos pensamentos… Mas vou me explicar.

Em um arquivo que ouvi de Françoise, ela comentava sobre a volta às aulas e sobre como era importante explicar as crianças o que era ir a escola, o que se fazia lá, quem iria levar ou buscar, para ajudá-las a montar na cabecinha delas o que estava para acontecer ou o que já vinha acontecendo a fim de dar aos pequenos informações para elaborarem a nova etapa de vida… Pois muitos só levam e trazem as crianças usando a palavras simplesmente para dar comandos e não para criar diálogos.

Ela também enfatizou que muitas vezes os momentos de extremo nervosismo se dão quando as crianças não conseguem entender o que se passa dentro e/ou ao redor delas e que o papel do adulto para ajudá-las a lidar com isso é intervir justamente através da palavra ajudando-as a lidar com essas angústias, saindo do papel de apenas dar ordens, mas dando acolhimento, explicações, e com isso a abertura para que os sentimentos que estão à flor da pele possam ser levados em consideração e assim a criança possa elaborar.

Essa fala por si só já foi riquíssima e já nos traz tanta coisa pra pensar, mas eu arrisco a ir um pouco mais longe e trazer essa mesma dinâmica para nós mesmos e nossos sentimentos.

Quantas vezes queremos nos calar e fazer com que apenas sigamos ordens, sigamos em frente sem a chance de elaborar? Quantas vezes tentamos nos manter em silêncio sem nos darmos a possibilidade de compreensão do que se passa dentro de nós?

E é o falar de uma análise nos permite esse processo, assim como o ter em mente esse processo que vai muito além do setting, nos permite esse constante questionamento.

Sempre digo que um dos nossos maiores desafios é sair dos automáticos da vida, do agir automaticamente, do pensar de forma automática e do se permitir refletir!

E para isso minha gente, é preciso coragem, a coragem de se deixar falar, de se deixar ouvir!

A mesma coragem de olhar para uma criança e lembrar que ela também merece esse direito, que pode ser igualmente assustador, pois sai do senso comum, mas que apesar de nos levar a lugares que podem preocupar por serem desconhecidos, podem nos surpreender tanto e nos permitir tão mais! ❤️